segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Alexander Junqueira X Marco Lisboa - Guerra Fria: Estivemos de fato perto de um holocausto nuclear?


§1 - Cada debatedor tem direto a no máximo 3 postagens (de 4096 caracteres cada uma) por participação. Cada postagem que ultrapassar este limite será multada com -1 ponto.   


§2 - Os debatedores DEVERÃO fazer 4 participações intercaladas por duelo:considerações iniciais, réplica, tréplica e considerações finais. Todo é debatedor é livre para finalizar SUA participação a partir da réplica se assim desejar. Neste caso a enquete é aberta após a última participação do oponente.


§3 - O prazo regulamentar entre as participações dos debatedores é de 3 dias. Após este prazo, o debatedor que não aparecer é desclassificado por W.O. e a enquete aberta para votação.        


§4 -  Após o duelo, o vencedor será escolhido através de votações em enquete.

21 comentários:

  1. Alexander Junqueira17 de agosto de 2012 14:09

    Saudações a todos,em especial a Marco Lisboa.
    Esse debate levanta a questão do possível holocausto nuclear durante a guerra fria entre a URSS e os Estados Unidos. Foi uma ameaça real? Estivemos de fato a um passo de uma catástrofe sem precendentes na historia humana?


    Primeiro precisamos entender um pouco da história conturbada da união soviética e um pouco do perfil de seus líderes:

    No inicio do século XX a russia ainda era um império e portanto comandada pelo Czar Nicolau II. O império russo passada por uma transição tardia de um sistema quase feudal para uma industrialização feita as pressas, com pouquíssimas mudanças reais aos antigos servos e o proletáriado em geral. A fome, a miséria, o desemprego, a falta de transportes em massa e o acentuado contraste social entre as classes russas, traziam insatisfação e medo entre as classes menos favorecidas.
    Após a desastrosa derrota na guerra contra o japão em 1905, o governo de Nicolau II se encontrava a beira do abismo. Nesse mesmo ano houve o chamado "ensaio-geral" da revolução, onde um milhão de pessoas marcharam em direção ao palácio de inverno do Czar clamando por melhores condições de vida, reforma agrária, fim da censura e liberdade religiosa. A resposta do Czar foi sucinta e veio em forma de bala, dos muros do palácio os soldados do império dispararam, sobe as ordens de Nicolau II, em todos os manisfestantes, o que culminou na morte de centenas de pessoas. Esse episódio foi conhecido como Domingo Sangrento, e foi o estopim para o fim do império russo.
    O resultado do Domingo Sangrento foi uma revolução em massa, em todas as partes do país, paralisações e greves, violência generalizada e a voz da revolução bolchevique ganhando forças. A palavra de ordem nas ruas era "Abaixo a autocracia".
    Com a entrada na primeira guerra mundial, o governo do Czar estava no seu fim. Sem condições de manter uma guerra desse porte, culmina na data de 27 de fevereiro de 1917 onde camponeses, soldados, agricultores, a recente classe média e revolucionários em geral, invadem o palácio do Czar e arrastam ele e a família real para as ruas. Em outubro desse mesmo ano se encerra definitivamente o império russo e se inicia a união soviética, sobe o comando de Lenin.
    No ano seguinte o tratado de Brest-Litovski é assinado, e a russia se retira da primeira guerra mundial e passa a se concentrar em consolidar a sua recente USRR.
    O que se deve ficar claro, acima de todas os outros eventos importantes desse periodo é que Lenin era um simbolo e um fator unificador, sua morte não só abala as estruturas de poder, como também a separa. Stalin e Trotsky tinham opinião profundamente diferentes de como seria o futuro do socialismo. Trostsky acreditava que o socialismo só funcionaria se fosse transmitido ao resto do mundo e Stalin preferia somente semear a rússia e seus países satélites com a semente socialista. Trostky perdeu, foi exilado e assassinado com um gancho de alpinista no cranio, a mando de Stalin. Stalin tinha pouquissima paciência para o que ele considerava traição, e também não era um educando, a burguesia não foi incorporada e instruida a pensar de maneira distinta ao capitalismo, como Lenin e Marx pretendiam, Stalin simplesmente ordenou a caça e execução sumária de dissidentes e burgueses. Alguns dizem que era um homem prático.
    Quando Hitler quebra o pacto de não agressão e ataca a URSS, Stalin usa da antiga tática de terra arrasada, que consistia em levar o exército e o povo ao interior do país e destruir tudo que houvesse pelo caminho, não deixando nenhum tipo de suprimento para o exército inimigo e deixar que o duro inverno russo fizesse a maior parte do trabalho. Funcionou contra Napoleão e funcionou contra Hitler, que perdeu dezenas de divisões tentando conquistar Stalingrado, um dos motivos que acelerou a derrota Nazista.



    ResponderExcluir
  2. Alexander Junqueira17 de agosto de 2012 14:49

    O fim da segunda guerra resultou em um problema nunca antes visto, já que o desequilibrio militar consistia em duas potências com um exército esmagadoramente superior a qualquer outra nação da época e com visões ideológicas totalmente antagonistas.
    Com uma europa arrasada estrutural e financeiramente, começou-se um processo de investimentos para que ambas as potências mantivessem influência por toda Europa, que agora dependia de ambas para se reerguer.
    A destruição de Hiroshima e Nagasaki por duas armas de destruição em massa, culminaram na rendinção incondicional do Japão e mandaram a mensagem ao mundo de que aquele seria o futuro das guerras.
    Enquanto os EUA iniciavam o plano Marshal, criado pelo secretário de estado George Marshal, que consistia em impréstimos a baixos juros e investimentos para evitar a crise na europa, a URSS criava a sua COMECON ( Conselho para Assistência Econômica Mútua)para assegurar que os países satélites - países em teoria independentes, mas que dependiam ideológica, militar ou economicamente de outro país mais forte - da URSS não viessem a se interessar pelo plano Marshal dos Estados Unidos.
    Isso culminou com a criação da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) pelos estados unidos, que "ficou" com a Europa ocidental e Pacto de Varsóvia que dava segurança militar a URSS que mantinha o controle da parte oriental.

    Até 29 de Agosto de 1949, o medo da guerra fria ainda não existia, pois se considerava os EUA invulneráveis a um ataque nuclear russo, já que o mesmo não possuia armas de destruição em massa, nessa data ocorre o primeiro teste russo de uma bomba atômica.
    E o medo aumenta ainda mais quando os russos anunciam e testam a sua nova tecnologia ICBM (Míssel bálistico intercontinental), onde não mais necessitavam de um avião para carregar a bomba, que podia atingir os EUA sem precisar de nenhum piloto.
    Além disso a Russia mantinha uma estrita campanha de terror, divulgando fotos de seus silos supostamente abarrotados de misseis nucleares e fazendo pomposos desfiles de suas armas bélicas em Moscou, a vista de todo o planeta.
    Em 1960 ambos os países tinham bombas atômicas suficientes para literalmente destruir o resto do mundo. Se qualquer um deles fosse atacado, os resultados seriam apocalipticos.
    Esse é um pequeno retrato do mundo durante a guerra fria. Vamos entender o que impediu que o desastre acontecesse:

    A doutrina MAD (Loucura em inglês) era a sigla de "mutual assured destruction" (Destruição mutua assegurada), consiste na lógica que se você conseguir igualar seu armamento a de seu inimigo enquanto ele faz o mesmo, a ponto de nenhum de vocês puder sobreviver a uma guerra, essa guerra possivelmente não vai acontecer.
    Usada como agente preventivo, essa doutrina tem dois problemas, ela gera uma constante tensão e insegurança de ambas as partes e tem como base psicologia de guerra e hipótese que ninguém apertaria o "botão" primeiro.
    A doutrina desconsiderou uma série de fatores cruciais, que quase nos levaram a extinção, são eles:
    - Fator humano: Durante os periodos de maior tensão, um agente "plantonista" guardava o ardente botão vermelho que desencadearia a resposta a um possível ataque do outro lado, enviando de imediato ogivas para que ambos os lados fossem retalhados em caso de um ataque. Esse homem poderia a qualquer momento desencadear uma guerra. Nenhum perfil psicológico é suficiente para dar a um homem ou mesmo um grupo deles poder de controle sobre uma arma de tamanho poder de destruição.

    Peso diplomático - Durante a guerra fria a bomba atômica pesava como uma sombra em qualquer negociação diplomática, era praticamente impossivel manter a constancia de paz, quando o país que negociava com você podia destruir o seu em poucas horas.


    ResponderExcluir
  3. Alexander Junqueira17 de agosto de 2012 14:50

    A falha mecânica - Os computadores da época não eram tão sofisticados quanto hoje, e até mesmo na nossa era sofremos com falhas dos mesmo que resultam em desastres. Trens colidem, represas estouram, telefones ficam mudos, luzes apagam, aviões e ônibus espaciais explodem, usinas nucleares provacam desastres. Existe inclusive um caso, que falaremos mais a frente onde o computador soviético, durante a guerra fria, indicava, por conta de uma falha, que cinco ogivas haviam sido lançadas dos EUA em direção a Moscou.

    O dilema do prisioneiro e o equilibrio de Nash:
    Dois prisioneiros, em celas distintas. Diga aos dois o seguinte: Se você acusar o seu colega na sala ao lado e ele não acusar você, você saira livre e ele será preso por 10 anos. Se você não acusá-lo e ele acusar você, você será preso por 10 anos e ele sairá livre. Se vocês dois se acusarem ambos ficaram presos por cinco anos. Se vocês dois ficarem em silêncio, ambos apanham 6 meses. Diremos o mesmo ao outro prisioneiro e você não terá nenhum contato com ele até ambos tomarem a decisão.
    O que você acha que aconteceria? As pessoas tendem a se protegerem primeiro e presumirem que o outro fara o mesmo, portanto, segundo o equilibrio de John Nash, na verdade é mais provavel que ambos vão optar para a própria proteção, e receberem 5 anos de sentença do que seguirem pelo caminho que seria de fato melhor para ambos, que é nenhum dos dois se acusarem e ambos receberem somente 6 meses. O mesmo acontece em uma politica ao estilo da guerra fria, embora fosse melhor para ambos que não produzissem mais bombas atômicas e insistissem para uma solução diplomática, você nunca pode ter certeza se o outro ira fazer o mesmo, então você permanece fabricando suas bombas para se defender, permanece acusando o prisioneiro, porque é, supostamente, mais seguro, já que você não pode confiar no seu adversário, não pode ter certeza do que ele vai fazer. Isso cria um efeito de bola de neve, o problema aumenta, a tensão aumenta, o dedo coça para apertar o maldito botão. Nas próximas partes nos aprofundaremos nos conflitos gerados durante a guerra fria, um pouco de teoria dos jogos e tentaremos chegar a conclusão de se estivemos ou não perto de nos destruir.

    ResponderExcluir
  4. Meu caro Alexander, saudações
    Li suas considerações iniciais e senti que faremos um ótimo debate. Você foi feliz ao apresentar um dos lados, a antiga União Soviética. Embora tenha discordâncias pontuais, aqui e ali, acho que sua introdução cumpriu seu objetivo: situar a evolução de um dos lados até chegar aos anos 60, período em que a guerra fria atinge sua temperatura mais alta. Como você bem assinalou, chegamos a uma situação em que duas ideologias antagônicas, ambas com a capacidade de destruir várias vezes a outra, se defrontavam.
    A doutrina MAD é o equivalente ao termo que se usava na época: “o equilíbrio do terror”. O conteúdo é o mesmo: já que nenhum dos dois poderá sobreviver a uma guerra, essa guerra possivelmente não irá acontecer.
    Aqui retomo a doutrina de Clausewitz, sobre a guerra. Para ele, a guerra é a continuação da política por outros meios. Ela serve perfeitamente para caracterizar esse período.
    Restou-me apresentar o outro lado, os países capitalistas, notadamente os americanos, que possuíam o maior arsenal nuclear.
    Desde a doutrina Monroe, formulada em uma mensagem ao congresso, em 1823, que definia claramente o continente americano como o seu quintal (embora ele não usasse palavras tão cruas), os objetivos estratégicos dos americanos evoluíram.
    Em 1901, uma frase atribuída ao presidente Theodore Roosevelt, sintetizava qual seriam os objetivo americanos nesse quintal: “fale macio, mas carregue um grande porrete”. A ocupação do Canal do Panamá e a interferência americana na guerra de independência cubana, com a conseqüente transformação de Cuba em um quase protetorado americano, mostraram que o porrete estava ali para ser usado.
    Os Estados Unidos eram uma potência emergente. Inicialmente voltados para si mesmos e para o continente americano, só começaram a ter um peso na política internacional após a segunda guerra. Não chegaram a ter colônias como os países europeus (Inglaterra, França e outros).
    Cada época trava a guerra à sua maneira. As guerras napoleônicas eram guerras de movimento. O gênio de Napoleão consistia em concentrar rapidamente as suas forças e usá-las no ponto certo e na hora certa. Eram campanhas mais ou menos curtas, que terminavam com a tomada da capital ou com a destruição do grosso dos exércitos inimigos. A economia ainda não estava preparada para suportar uma guerra total e prolongada como foram as duas grandes guerras. Quando Napoleão invadiu a Rússia e tomou a sua capital, sem, no entanto, destruir o grosso do exército russo, ele seguia o figurino da época. O Tzar não se rendeu, veio o inverno e a derrota. Na Espanha, Napoleão foi derrotado sem perder uma única batalha, pelos camponeses que usavam a tática de guerrilha.
    A segunda guerra mostrou que a vitória seria, não do melhor estrategista, e sim do país ou países cujas indústrias estivessem à altura de repor os tanques, aviões e navios perdidos, no ritmo exigido e pudessem suportar a enorme sangria de perdas humanas. A União Soviética derrotou os alemães porque possuía um enorme território para manobrar e conseguiu transferir suas indústrias para além dos Urais. Os americanos despontaram como potência porque não foram atacados em seus territórios, sofreram perdas humanas relativamente pequenas e tinham um parque industrial moderno, com uma linha de produção baseada no fordismo, que garantiriam de qualquer maneira uma posição dominante no pós guerra.
    A luta contra o nazi-fascismo, havia unido provisoriamente dois sistemas antagônicos: socialismo e capitalismo. Depois da segunda guerra, o objetivos de cada um dos lados era o de ver o seu sistema predominar em todo o mundo. Era um conflito global.

    ResponderExcluir
  5. Aqui é necessário fazer um reparo em relação à polêmica do socialismo em um só país, que opôs Trotstky e Stalin. Essa divergência era muito mais de fundo tático. Os revolucionários russos contavam com a vitória dos comunistas alemães, um país capitalista avançado, onde havia de condições favoráveis muito favoráveis. Houve uma série de revoltas, mas a repressão acabou com o movimento. Em Brest-Litovsky, a tática de Trotsky, que seguia as orientações do Comitê Central, era a de ganhar tempo. Finalmente ficou claro que a revolução alemã não era iminente. As alternativa eram prosseguir a guerra, contando que isso aumentaria as chances de um levantamento nos países mais adiantados da Europa, mesmo a custa de por em risco a revolução russa, ou fazer uma paz a qualquer custo, para preservar esta última. Bukharin defendeu a primeira e a segunda ganhou por uma estreita margem.
    Durante todo o período entre a primeira e a segunda guerra, havia uma Internacional Comunista, a III Internacional, que unificava as ações dos vários partidos nacionais. A meta estratégica de Stalin era a mesma de Trotsky: a revolução mundial. A diferença era que o primeiro achava que a melhor forma de contribuir para essa era criando uma base forte de apoio, a URSS. Essa política levou a distorções, com o objetivo imediato virando um fim em si mesmo.
    A terceira guerra mundial, se deflagrada, teria uma lógica diferente. Não haveria grandes batalhas, apenas mísseis cruzando o Pólo Norte. Acabaria, provavelmente, com a destruição dos dois. Como então levar a cabo os objetivos estratégicos de cada lado?
    A China havia mostrado que a guerra de guerrilhas era um meio eficaz. Havia um imenso território (Ásia, África e América Latina favorável ao uso deste intrumento). Os americanos, através do patrocínio de uma série de golpes militares, ou mesmo através do envio de seus marines, haviam conseguido êxitos. Embora houvesse uma disputa global entre dois sistemas, os conflitos armados eram locais.
    Portanto, as duas superpotências, embora armadas com um arsenal nuclear tinham à sua disposição outros meios para conseguirem os seus objetivos finais. O que não quer dizer que a ameaça de uma guerra nuclear estivesse afastada. O Alexander mostrou com muita felicidade várias circunstâncias que poderiam ter provocado um holocausto nuclear, contra toda razão em contrário. A chamada crise dos mísseis de 1962 foi o primeiro teste mais sério para testar a racionalidade dos dois lados. Foi por pouco. Na minha próxima postagem vou comentar sobre essa crise.
    É interessante notar que o confronto, a partir de Khrushev sofre uma atenuação. A tática agora seria a transição pacífica e a competição. Embora isso signifique que os partidos comunistas não deveriam mais se basearem na luta armada, até a década de 70 houve uma série de guerras de libertação locais, sendo o Vietnã a mais famoso. E foi sob Khrushev que se produziu a crise mais aguda. Prova de que a guerra e a politica se alternavam.

    ResponderExcluir
  6. Alexander Junqueira27 de agosto de 2012 22:45

    26 de setembro de 1983,
    Era um dia comum no bunker Serpukhov-15, situado na região de Moscovo na antiga URSS. O Tenente-Coronel Stanislav Petrov se preparava para mais um plantão de rotina monitorando o OKO, o sistema de defesa por satélite que tinha como objetivo avisar de antemão qualquer possivel ataque nuclear a União Soviética. O sistema OKO, desenvolvido pela empresa Lavochkin Research and Production Association - que tinha um papel fundamental no desenvolvimento do programa espacial russo - foi desenvolvido em 1970, mas só entrou em pleno funcionamento em 1982, consistindo na época de sete satélites cuja única função era monitorar o espaço aéreo entre a Russia e os Eua. Um sistema importante, que deveria estar imune a falhas.
    Naquele dia o sistema avisa que cinco misseis nucleares saiam dos Eua e iam em direção a URSS. Stanislav tinha como obrigação, caso isso acontecesse, de acionar seus superiores reportando um ataque, que seria respondido com outro ataque em massa. O sistema era seu único meio de se preparar para um ataque e ainda assim, confiando somente em seu instinto, o tenente comunica uma falha técnica. Confirmada horas depois, a falha técnica aconteceu, mas a única prova que Stanislav possuía era a própria intuição e nada mais.

    O problema de Petrov:
    A maioria das pessoas hoje, toma o caso Petrov como a bravura de um homem singular que previniu a terceira guerra mundial e o dito holocausto nuclear, mas era esse o caso? Tente se imaginar tendo que traçar um perfil psicológico de um homem que você teria que escolher para vigiar o seu país contra um possível ataque. Você escolheria, analisando o histórico desse caso em particular, Petrov? Você escolheria um homem que hesitaria no ultimo instante, colocando em risco você, sua família e seu país? Não e foi o mesmo que os russos pensaram, apesar de não ter sido punido, por se tratar de um caso em que somente um julgamento subjetivo do sujeito, no caso Petrov, foi levado em consideração para tomar a decisão, e a maquina que ele deveria se guiar - ignorando o ponto que ela falhou - que o dizia que sim, um ataque estava acontecendo, foi totalmente ignorada pelo mesmo, eu digo que, apesar da felicidade do erro de Petrov, esse homem não serve para estar no controle de um sistema como esse. Infelizmente, eu e você leitor, escolheriamos alguém com um dedo mais nervoso.

    ResponderExcluir
  7. Alexander Junqueira27 de agosto de 2012 23:01

    O caso Arkhipov:
    Em 27 de outubro de 1962, onze Destroyers (http://en.wikipedia.org/wiki/Destroyers) e o porta-aviões USS Randolph (http://en.wikipedia.org/wiki/USS_Randolph_(CV-15) encurralaram o submarino nuclear russo b-59 (http://en.wikipedia.org/wiki/Foxtrot_class_submarine).
    Os destroyers e o porta-aviões começaram a usar de armamento de profundidade, explosivos que visavam obrigar o submarino a ir a superficie e se identificar. Valentin Grigorievitch Savitsky era o capitão do submarino e desconhecendo o resultado da crise de misseis, tomou o ataque como prova de que de fato a guerra havia começado e teve a intenção de lançar um ataque nuclear.
    Haviam três oficiais a bordo, Ivan Semonovich Maslennikov o oficial politico, o próprio capitão Savistsky e o segundo em comando Vasili Alexandrovich Arkhipov. Eles tinham a autorização de que se os três concordassem unanimamente, o lançamento poderia acontecer. Uma discussão irrompeu entre os 3 e somente Vasili foi contra o lançamento. Vasili convence então o comandante a ir para superficie e esperar ordens de Moscou.
    Inspirado nesse evento nós temos o filme Maré vermelha, cuja roteiro foi escrito por Michael Schiffer e depois reescrito pelo grande Tarantino. Uma ótima pedida. Assim como um de temática similar que seria o A caçada ao outubro vermelho.


    ResponderExcluir
  8. Alexander Junqueira27 de agosto de 2012 23:23

    A anatomia do Genocídio:
    Para se compreender como surgem as barbaries e como seria perfeitamente possivel para um pai de família apertar um botão que findaria milhões de vidas, temos que entender um pouco sobre o principio da autoridade.
    O ano era 1961 e os tribunais de Jerusalém acabavam de julgar mais um oficial nazista da Segunda Guerra Mundial. Seguindo intensa investigação internacional o Mossad capturou Otto Adolf Eichmann em Buenos Aires iniciando uma batalha diplomática entre Israel e o governo argentino para levá-lo aos tribunais. Condenado por quinze crimes de guerra e executado no ano seguinte, Eichmann era considerado o "arquiteto do Holocausto" e suas declarações chocaram o mundo por sua frieza e pelo modo como seus subordinados seguiam cegamente suas ordens. Algumas delas iniciaram verdadeiros genocídios nos campos de concentração nazistas.
    A teoria corrente sobre obediência apoiava-se nas rígidas cadeias hierárquicas da SS e na lavagem cerebral a que os soldados eram submetidos desde as fileiras mais baixas do exército.
    Mas Stanley Milgram acreditava que a resposta estava mais no tipo de ambiente do que na autoridade em si. Sob sua ótica, qualquer situação potencialmente persuasiva poderia levar pessoas comuns a abandonarem seus princípios morais e cometerem as piores barbaridades.
    Stanley, baseado nesse argumento, inicia um estudo sobre o potencial prejudicial da autoridade e o quão longe podemos ir se formos devidamente persuadidos a isso.
    Você está num laboratório de uma Universidade, mas precisamente Yale, onde um sério pesquisador num imponente jaleco cinza explica-lhe e a outro participante os procedimentos:
    "Um sorteio definiria quem seria o Professor e o Aluno. O primeiro faria uma série de perguntas pré-definidas ao segundo e, a cada erro, um choque elétrico de pequena intensidade (15 volts) ser-lhe-ia administrado através de uma máquina acionada pelo próprio Professor. A cada erro a carga a aumentaria em incrementos de 15 volts, até o limite de 450 - diga-se, uma carga extremamente perigosa e potencialmente fatal."
    Você é sorteado para ser o professor, o que imediatamente lhe causa uma sensação de vitória e alívio, afinal, você não vai levar choque nenhum, aqui iniciá-se a primeira parte do processo de persuasão, onde lhe é dada um pouco de autoidade e segurança.
    O fato é que o pesquisador e o infeliz sujeito sorteado para ser o aluno são atores, e você é o experimento. Durante a bateria de perguntas que você vai executar no suposto aluno, é inteiramente sua escolha ir aumentando a intensidade do choque, embora o "pesquisador" contantemente o incentiva com olhares e palavras a seguir adiante.
    A figura de autoridade é o pesquisador, impassivo, "uniformizado" e constante, ele forma um impecavel arquétipo de um doutor, aonde se presume sua autoridade inata e um conhecimento maior que o seu. O experimento não visava encontrar sádicos - o que eventualmente encontrou - mas sim provar, que qualquer pessoa poderia, com uma figura de autoridade, um meio persuasivo e recebendo algum tipo de autoridade ela mesma, executar qualquer ato de barbarie e que sim, era possivel assar judeus em fornos de manhã e voltar para casa a tarde para brincar com os filhos.
    O principio causava desassociação, se tornava mecanico, pouco do emocional estava envolvido quando o teste era acionado e você se sentia parte de um sistema, incluso, diferente da outra parte - o aluno - que representaria a minoria, sem autoridade, banido daquele sistema que você era parte "essencial". Tudo isso influênciava e muito nas suas escolhas, mesmo com os gritos do ator a sofrer dos supostos choques, era possivel continuar até o choque letal e ir para casa contente.



    ResponderExcluir
  9. Alexander Junqueira27 de agosto de 2012 23:23

    Antes de realizar a pesquisa, Milgram submeteu seu esboço a quatorze colegas seus, perguntando-lhes como imaginavam que os voluntários se comportariam. O mais pessimista estimou que três em cada cem iriam até o final - isto é, administraria os choques até o perigoso limite de 450 volts - e a média do grupo avaliou que 1,2% dos participantes aplicaria o derradeiro choque final.
    Durante o experimento, os voluntários davam diversos sinais de nervosismo. Suavam em profusão, tremiam, mordiam os lábios, gemiam, cravavam as unhas na pele. Pelo menos um deles teve um incontrolável acesso de riso e outro sofreu convulsões obrigando-os a interromper a sessão.
    Mas em vez do 1,2% previsto por seus pares, Milgram deparou-se com a assustadora obediência de 26 dos 40 participantes do experimento. Nada menos que sessenta e cinco porcento! E nenhum voluntário desistiu antes dos 300 volts.

    Nas próximas postagens pretendo concluir e conectar os 3 argumentos utilizados, sendo eles a doutrina da destruição mutua, o fator humano e o principio da autoridade para assegurar o argumento de que sim, a guerra fria poderia ter resultado facilmente em um holocausto e que o futuro requer não só vigilancia constante, mas mais empatia e um pouco do velho e antiquado amor.

    "Ours is a world of nuclear giants and ethical infants. We know more about war that we know about peace, more about killing that we know about living."
    Omar N. Bradley

    ResponderExcluir
  10. Lendo a réplica do Alexander, ficou a impressão de que o nosso duelo será muito produtivo, dado o caráter complementar de nossas intervenções. Como havia prometido, abordarei a chamada crise dos mísseis de 62, que colocou Kennedy e Krushev numa rota de colisão, que poderia ter levado a um holocausto nuclear.
    Em um livro ainda inédito que escrevi sobre a Guerrilha do Araguaia, eu comento as políticas de transição pacífica e coexistência pacífica, de Khrushev:
    “Segundo Khruschev, o bloco socialista ocupava “25% da superfície do globo, com uma população superior a 35% do total mundial e suas indústrias contribuem com cerca de 30% da produção industrial do mundo.” Ele concluiu que, se os sistemas capitalistas e socialistas pudessem conviver pacificamente, o socialismo iria se impor gradualmente. Devido ao peso crescente do bloco socialista, “os povos dos países coloniais e dependentes podem hoje alcançar sua completa independência econômica mediante a conquista ou a consolidação da liberdade política e a realização de uma política externa independente e de acordo com os reais interesses nacionais.” Em outras palavras, a revolução armada não era mais necessária e nem desejável.”
    Entretanto, Cuba havia feito uma revolução armada em 1959 e, após a tentativa malograda da Bahia do Porcos, em 61, quando exilados cubanos de Miami haviam tentado derrubar Fidel, declarara-se socialista. Em resposta a essa tentativa e à instalação de mísseis nucleares americanos na Turquia, Itália e Inglaterra, os russos instalaram 40 silos de mísseis em Cuba. As instalações foram identificadas através de vôos de aviões reconhecimento, os U-2, que voavam a grande altitude. Kennedy lançou um ultimato, pedindo a retirada dos mísseis, sob pena de um ataque nuclear.
    Após tensas negociações, que envolveram algumas contrapartidas, como a promessa americana de retirar seus mísseis da Turquia e de não mais patrocinarem tentativas de invasão de Cuba, os russos cederam.
    A crise acabou levando a um arrefecimento das tensões. De ambos os lados havia partidários de um ataque nuclear preventivo, capaz de derrotar o outro lado definitivamente, ainda que a custa de enormes perdas. Fidel chegou a enviar um telegrama a Khrushev, aconselhando-o a pensar nessa alternativa. Do lado americano, havia os denominados “falcões”, que defendiam a mesma tese. Durante a Guerra da Coréia (1950-53), o uso de armas atômicas chegou a ser proposto e estudado. Mais tarde, em 1964, o candidato à presidência, Barry Goldwater, insinuava que poderia acabar rapidamente com a guerra do Vietnã jogando algumas bombas ...
    Apesar de tudo, as “pombas” (partidários da paz) acabaram prevalecendo. Apesar dos conflitos locais, os dois lados se esforçaram em diminuir as tensões e iniciarem o desarmamento nuclear. A partir de 1968, quando 47 países assinaram um tratado de não proliferação de armas nucleares, vários acordos foram firmados.
    Uma ligação direta entre o presidente americano e o seu equivalente russo foi instalada. Era o famoso telefone vermelho (que do lado russo é amarelo). Embora a tendência geral tenha sido a de evitar um conflito nuclear, as tensões entre os dois lados experimentaram altos e baixos.
    Essas variações podem ser visualizadas no famoso Relógio do Juízo Final, também conhecido como o Relógio do Apocalipse. É um relógio simbólico, mantido deste 1947 pelo Bulletin of the Atomic Scientists da Universidade de Chicago. O relógio foi inicializado a sete minutos para a meia-noite, onde a meia noite seria o início da guerra nuclear. O relógio é atrasado a cada vez que a ameaça diminui e avançado em caso contrário. Nesse site, podemos seguir estes avanços e recuos: http://pt.wikipedia.org/wiki/Rel%C3%B3gio_do_Ju%C3%ADzo_Final
    A conclusão é que a ameaça sempre esteve presente, seja devido a um agravamento das tensões, seja devido a uma série de acontecimentos imprevistos, como bem assinalou Alexander.

    ResponderExcluir
  11. Alexander Junqueira11 de setembro de 2012 10:53

    Quando Milgran estudou a obediência a autoridade, ele criou cinco categorias de poder para uma figura de autoridade, categorias que demonstravam as diversas formas que esta autoridade poderia influenciar um individuo, são elas:

    Recompensa: O sujeito influenciado vê a figura de autoridade como alguém que pode lhe conceder algum tipo de benefício. Geralmente o próprio fato de ser considerado uma figura de autoridade, faz com que suas avaliações positivas sobre o sujeito se tornem especialmente recompensadoras, tendenciando o mesmo a buscar sua aprovação.

    Isso inclui desde livros infantis de instrução a figuras como o Misha, urso gentil russo criado para olimpiadas de 1980 "Misha foi a primeira mascote de um evento desportivo que alcançou êxito comercial a nível mundial (apesar de ser originário de um país socialista que não primava pela obtenção de lucros). Diversos produtos foram vendidos em todo o mundo com sua imagem e surgiu mesmo uns desenhos animados de origem japonesa baseados no dito personagem que foram um sucesso.".
    A tendencia da série de cartazes criados para época eram motivacionais e inspiravam o povo a pensar em cidadania e em si mesmos - aqueles que trabalhavam pelo bem do governo - em heróis, homens lendários e que seriam para sempre lembrados.

    Coerciva: O sujeito vê a figura de autoridade como uma potencial fonte de punição ou admoestação. A figura de autoridade mantém uma constante pressão e uma promessa de consequencias negativas ante a não obedicência.

    Legitimada: Figura de autoridade que possui, teóricamente, algum tipo de hierarquia superior ou poder que legitime o fato de estar no comando. E especialmente difícil desobedecer esse tipo de FDA pois causa uma sensação de obrigação e dever ao cumprimento de suas ordens.

    Referente: FDA que causa admiração ou identificação. A sensação de respeito ou a cortesia usado pelo FDA torna díficil negar-lhe seus "pedidos". Geralmente são figuras carismáticas ou especialmente empaticas, utilizando de táticas de intimidade instantanea, a quem a desaprovação causa sensação de atingir um idolo ou amigo de longa data.

    Expert: A FDA parece ter um grau de conhecimento avançado no assunto, algum tipo de especialização e transparece profundidade e incontestável segurança quanto a o assunto X. Como a FDA representa a figura do "doutor" especialista, é dificil para alguém que se considere com menos preparo ousar contestar as ordens, por mais absurdas que pareçam. Passam uma sensação de segurança ao cumprir suas ordens, algo como "Ele sabe o que está fazendo".

    Informacional: A FDA lhe instrui de maneira extremamente convincente e as informações que lhe passa sobre o que deve fazer são intrínsecamente manipulativas. Neste caso a informação fica no papel da FDA, sendo convincente o suficiente sobre sua importância para que não seja contestada.

    ResponderExcluir
  12. Alexander Junqueira11 de setembro de 2012 11:02

    Esses tipos de autoridade são vastamente utilizadas para manter a obediência em diversos ramos militares. O nazismo por exemplo, tinha Hitler como FDA referente e legitimada e suas palavras como FDA Informacional. Durante a guerra fria o ultra nacionalismo e o conceito de "Mãe Russia" servia como base para as FDAs soviéticas. Isso era conhecido como Realismo Socialista.

    Realismo Socialista:
    Todos os tipos de manisfestações artisticas e culturais passavam por um rigoroso controle, onde a intenção era criar um vinculo direto do povo com a sua nação. A intimidade era a palavra chave, onde o conceito de Pai do estado, atribuido a Stalin, mantinha um certo grau constante de autoridade "carinhosa" e genuína, onde o estado sempre saberia o que seria melhor para você. Criado por Andrei Jdanov correligionário de Stalin, o chamado Jdnovismo consistia exatamente nisso, em eliminar principios egoístas e individualistas, em pról da grande causa do estado e da nação, que se tornaria uma figura de família incontestável.

    "Em pintura, destacou-se entre os soviéticos Aleksandr Gherassimov. Os retratos de intrépidos trabalhadores produzidos dentro da linha do realismo socialista, no entanto, deixam transparecer um positivismo heróico, mas a ambição realista perde-se na idealização de uma organização social perfeita. Grande número de artistas soviéticos, partidários de uma sociedade de justiça social mas cerceados em sua liberdade essencial de criar, abandonaram o realismo socialista, deixaram a União Soviética e se integraram aos movimentos artísticos do Ocidente."

    O urso Misha, criado para as olimpiadas de 1980, é outro exemplo da utilização do Jdnovismo. "Misha foi a primeira mascote de um evento desportivo que alcançou êxito comercial a nível mundial (apesar de ser originário de um país socialista que não primava pela obtenção de lucros). Diversos produtos foram vendidos em todo o mundo com sua imagem e surgiu mesmo uns desenhos animados de origem japonesa baseados no dito personagem que foram um sucesso."

    O individuo era ensinado a pensar como cidadão e a viver pelo estado. Os posteres e cartazes mostravam soldados e estudiosos do Socialismo enaltecidos a nível de heróis lendários, homens acima do comum cujo nome viveria para sempre. Essa constante influência tendia a criar o fanatismo necessário para as incursões russas e a lealdade inabalavel de seus representantes mais ávidos. A sensação de onipresença do seu lider, representado em estatuas, cartazes, fotografias e pinturas era extremamente estimulado e era de bom tom manter livros socialista a mostra em sua residência, bem como a figura do lider encarnado na sua sala de estar. A onipresença do lider tendia a sensação de que a onisciência e onipotencia a seguiam e portanto, além de amá-lo, devia-se temê-lo.

    ResponderExcluir
  13. Alexander Junqueira11 de setembro de 2012 11:24

    No seu estudo sobre aprendizagem Piaget conclui que a principio a criança toma sua orientação moral e as normas como vai ditar sua vida através de uma figura de autoridade. Como o desenvolvimento a criança se torna capaz de racionalizar seus próprios julgamentos, se tornando mais independente da figura de autoridade e se tornar autonoma na sua racionalização social. Porém a autonomia não substitui completamente a depedencia por autoridade, só a torna mais complexa. A figura adulta ainda ira tomar FDAs para si mesmas, e seguir tendências, e em diversas situações tendera a obdecer uma figura que ela mesma atribua a autoridade.
    Sabendo então que autoridade na fase adulta é atribuida e que existem centenas de formas de se induzir o sujeito a atribuir autoridade a determinado individuo, não é dificil entender o quao efetivo era o realismo socialista na criação e manutenção da FDA encarnada no estado de na pátria.
    Não haveria oposição real a uma possivel retaliação nuclear russa, e seus soldados estavam compelidos a seguirem ordens sem oferecer julgamento adequado e autonomo.

    O desafio desse fator humano, considerando a psicologia russa da época, em oposição a doutrina da destruição mútua assegurada, era justamente que esta doutrina pouco significaria quando pensamos em termos individuais. Claro que politicamente seria infinitamente mais dificil para o estado russo decidir um ataque direto, mas o poder nuclear foi passado para mãos de individuos programados pela própria filosofia russa de pátria, que não hesitariam em recorrer as armas de destruição em massa em sua defesa, se fosse preciso escolher. Em verdade, o critério russo, como demonstrado no caso de Petrov era eliminar o pensadores individuais, instintivos e cautelosos dos cargos de autoridade e substitui-los por nacionalistas de pensamento apaixonado e ativista, não hesitantes e que morreriam de bom grado pela mãe pátria.


    Muito feliz com nosso debate Marco, gosto da maneira como você contribui com a parte histórica, algo que não estou tão familiarizado quanto você e de minha parte mantenho a contribuição com a psicologia e a politica de propaganda. Acho que no fim do debate nos complementaremos o suficiente para chegarmos a uma conclusão valida e uma visão aproximada de como era a real situação da guerra fria. Meus parabéns.

    ResponderExcluir
  14. Oi Alexander,
    Como a psicologia e a sociologia não são propriamente a minha praia, continuaremos o nosso debate percorrendo linhas paralelas. Você elencou cinco figuras de autoridade (FDA) que são utilizadas nos meios militares como forma de garantir a obediência.
    Em relação à União Soviética, o ultranacionalismo, incorporado na figura “Mãe Rússia”, serviria como base para essa obediência. Aqui, acho que você comete uma imprecisão ao caracterizar esse conceito, o nacionalismo, como o centro do Realismo Socialista de Jdânov.
    Como assinalei anteriormente, a bandeira da construção do socialismo em um só país, defendida por Stalin, era inicialmente uma questão tática – para derrotar o capitalismo em escala mundial era necessário fortalecer e defender a União Soviética, a base de apoio mais sólida do socialismo. Essa defesa levou a distorções que, na prática, implicaram em subordinar os movimentos revolucionários aos interesses de grande potência da URSS.
    A segunda guerra mundial é conhecida na Rússia como a “Grande Guerra Patriótica”. O atual hino, que já mudou de letras inúmeras vezes, foi adaptado para substituir o hino tradicional, a Internacional Comunista, em 1944. A própria organização dos partidos comunistas de todo o mundo, a chamada III Internacional, foi dissolvida em 1943, como forma de mostrar que todo esforço deveria ser dirigido contra o nazismo, ficando a luta de classes interna em segundo plano.
    Nesse sentido, é correto falar em um certo abandono do internacionalismo e uma ênfase crescente no nacionalismo. Em 7 de novembro de 1941, com os alemães às portas de Moscou, Stalin pronunciou um famoso discurso em que apelava diretamente ao patriotismo:
    "A guerra que vocês estão levando é uma guerra de libertação, uma guerra justa. Que inspire-os nesta guerra a imagem corajosa dos nossos grandes antepassados - Alexander Nevsky, Dmitry Donskoy, Kuzma Minin e Dmitri Pozharsky, Alexander Suvorov e Mikhail Kutuzov! ... Esse dia, a história foi reescrita.
    Fazendo uma analogia, seria como um governo socialista, diante de uma invasão, apelasse para os exemplos de Caxias, Osório, Floriano e outros “heróis”; como se houvesse uma continuidade histórica, que viesse desde o império (no caso russo, desde o tzarismo), passando por cima do conceito de luta de classes, central no marxismo.
    Entretanto, o Realismo Socialista, tal como foi concebido, tem outra origem e outros objetivos. Logo após a Revolução, a maioria dos intelectuais aderiu ao novo regime. Lunatcharsky, o Comissário do Povo para a Educação era um intelectual de prestígio, que colaborou com o grupo Proletkult, abreviatura de cultura proletária.
    O objetivo desse grupo era ultrapassar a cultura burguesa, unindo a ousadia formal a um conteúdo político e social. Entretanto, os excessos formais do grupo e a sua negação do passado literário não o tornavam útil como ferramenta política. A literatura russa está colocada em primeiro plano na arena mundial graças a figuras como Pushkin, Dostoiévsky, Tolstói, Turguenev e tantos outros, que eram e são muito populares em seu país. Lênin, apoiado na tradição marxista, criticou a pretensão de que seria possível criar de imediato uma nova cultura totalmente proletária, num país predominantemente camponês e atrasado, ignorando a herança dos grandes escritores do passado.
    O cinema foi visto desde o início como a arte de massas do novo século, um dos mais poderosos instrumentos de propaganda política. Eisenstein era um famoso diretor russo, que praticamente lançou uma teoria da montagem. Apesar de ter produzido Outubro e o Encouraçado Potemkin, clássicos até hoje, seu formalismo foi visto com desconfiança: sofreu a acusação de ser incompreensível para as massas. Esse mesmo diagnóstico perseguiu Maiakóvsky.

    ResponderExcluir
  15. Após a guerra civil e a coletivização forçada, em 1934, o regime finalmente pôde dedicar sua atenção à cultura e submetê-la às suas necessidades de propaganda. Neste ano, no Congresso da União dos Escritores da URSS, o realismo socialista foi estabelecido por Jdânov como o cânone oficial. A sua visão era extremamente utilitarista, via os escritores como “engenheiros de almas”, ou seja, trabalhadores intelectuais cuja tarefa principal era a de criar o Novo Homem que o socialismo requeria.
    Para isso era necessário adotar uma forma que fosse facilmente acessível. A diferença entre plano ficcional e realidade, que poderia causar confusão a um leitor menos preparado, era minimizada. O romance deveria utilizar personagens e situações “reais”, com heróis positivos e vilões caricaturais. A mensagem política vinha explicitada, como num panfleto. Não havia lugar para meios tons, a luz do escritor deveria mostrar tudo em preto e branco. Em pintura, isso significou renegar o abstracionismo e outras formas “burguesas e decadentes”. Na música, o dodecafonismo foi condenado. Em arquitetura, privilegiaram-se grandes construções pesadas e amplos espaços (há notáveis semelhanças entre o estilo soviético e o nazista em arquitetura).
    O realismo socialista virou a referência obrigatória para os artistas ligados aos partidos comunistas de todo o mundo. Aqui, Jorge Amado dirigiu uma coleção, “Romances do povo”, que reuniu clássicos desse estilo, escritas por autores de diversas nacionalidades. A trilogia “Subterrâneos da Liberdade, deste escritor, é um exemplo perfeito de realismo socialista.
    Como forma de arte eminentemente utilitarista, as produções posteriores a segunda guerra e durante a guerra fria refletiram as novas necessidades do estado soviético: realçar a figura paterna do líder, criar heróis positivos que servissem de modelo e reforçar a mística da Mãe Rússia. O mais correto seria dizer que houve uma mudança de ênfase, uma passagem da exaltação do socialismo, como sistema mundial oposto ao capitalismo, para o chauvinismo de grande potência.
    Um dos romances mais famosos da coleção dirigida por Jorge Amado é a Estrada de Volokolamsk, onde o herói é um cazaque, Baurdjan. Em uma de suas páginas, narram-se suas desventuras na escola, onde ele teve que brigar com colegas que queriam dar-lhe um nome russo.
    Já após a guerra, em vários discursos e livros, foi salientado que o povo russo, entre todas as repúblicas que compunham a União Soviética, teve um papel destacado, acima das outras nacionalidades na derrota do nazismo.
    A conclusão final do Alexander, é que o cidadão soviético comum, criado sob a influência dessas FDA, reforçadas pelo realismo socialista, estaria a pronto a morrer pela pátria, abrindo mão de sua individualidade e seguindo ordens sem questionar. Essas características reforçariam o perigo de que, em uma situação de um falso alarme, os oficiais passassem por cima da prudência e ignorassem as terríveis conseqüências de um holocausto.

    ResponderExcluir
  16. Eu vou abordar o ponto de vista oposto, mostrando que, da mesma forma, um individualismo extremo poderia levar ao desastre.
    Doutor Fantástico, de Kubrick, é um clássico do cinema e uma referência obrigatória para entender a guerra fria e o perigo de uma guerra nuclear. Aqui é um militar fanático, que acreditava no American way of life quem provoca a guerra. Segundo eles os comunistas estavam minando a força vital dos americanos, com a fluoretação da água. Ele toma uma base e ordena que os aviões lancem um ataque nuclear.
    Cada fortaleza voadora B-52 passava tempo todo no ar, sendo abastecida por aviões tanques e com um alvo específico a ser atingido. Em caso de problemas, havia outros alvos secundários designados.
    Após várias peripécias, os dirigentes russos e americanos entram em contato e o senso comum prevalece: ninguém ganharia com uma destruição mútua. Um a um os aviões recebem ordem de abortar a missão e retornam. Alguns são abatidos, com o consentimento americano. Resta um, que teve suas comunicações avariadas, está quase sem combustível e que não pode mais atingir seu alvo principal.
    O comandante é um cowboy. O estereótipo do herói americano, individualista e solitário, que acha que um homem deve fazer o que um homem tem que fazer, como dizia John Wayne. Ele decide ir para o alvo secundário, mesmo sem esperanças de voltar e finalmente, quando vê que a bomba está travada, sobe em cima dela para lançá-la manualmente. O resultado é um final antológico: ele desce cavalgando a bomba, como num rodeio, e o ataque detona a “máquina do juízo final”.
    Os russos haviam criado um mecanismo assim chamado, à prova de falha humana, que retaliaria um ataque nuclear inimigo, sem que houvesse como detê-lo, mesmo se o primeiro ministro assim quisesse. Resultado: os mísseis russos são lançados. As novas bombas russas continham cobalto radioativo com uma meia vida de quase 100 anos. A humanidade terá que voltar para as cavernas, agora antigas minas.
    A película foi baseada em um romance, com o título de “Alerta Vermelho”, escrito pelo ex-tenente da Força Aérea Inglesa Peter George, sob o pseudônimo de Peter Bryant, publicado no ano de 1958. Livro este que, apesar do pouco impacto que causou entre os americanos, impressionou alguns dos grandes estrategistas nucleares britânicos da época. http://www.tempopresente.org/index.php?option=com_content&view=article&id=3788:dr-strangelove&catid=26&Itemid=171
    Em suma, mesmo que a grande política das potências nunca pretendesse levar o conflito ideológico a uma guerra nuclear, o risco de uma falha humana, seja qual fosse a sua motivação ideológica, sempre existiu (sem falar numa possível falha mecânica). A razão humana gosta de acreditar que a história segue sempre uma linha racional e que seria impossível que nossa civilização fosse destruída como conseqüência direta das ações de um único fanático. Mas tanto a realidade, quanto a ficção, mostram que podemos ter estado bem perto disso.

    ResponderExcluir
  17. Alexander Junqueira24 de setembro de 2012 14:26

    "A guerra fria não está derretendo; está queimando com um calor fatal. Comunismo não está dormindo; está, como sempre, planejando, conspirando,trabalhando,lutando."
    Richard M. Nixon

    “Quando enforcamos capitalistas, eles nos vendem a corda” - Joseph Stalin

    "Dois bodes eram levados, juntamente a um touro, ao lugar de sacrifício, como parte dos Korbanot do Templo de Jerusalém. No templo os sacerdotes sorteavam um dos bodes. Um era queimado em holocausto no altar de sacrifício com o touro. O segundo tornava-se o bode expiatório, pois o sacerdote punha suas mãos sobre a cabeça do animal e confessava os pecados do povo de Israel. Posteriormente, o bode era deixado ao relento na natureza selvagem, levando consigo os pecados de toda a gente, para ser reclamado pelo anjo caído Azazel." - http://pt.wikipedia.org/wiki/Bode_expiat%C3%B3rio

    A antropologia e sociologia moderna, concordam que periodos de tragédia, caos e violência, resultam em populações que perderam sua personalidade, individualidade e segurança, populações com uma hierarquia desestabilizada e com pouquissimo controle sobre o próprio futuro. Em periodos assim, populações tendem a se transformar em multidões ou turba, necessitando instintivamente expiar esses momentos de horror em alguma forma fisica, algum objeto material controlável, paupável e possivel de se compreender; essas turbas necessitam de um bode expiatório.
    O bode expiatório é o termo cunhado para designar minorias perseguidas (as vezes caracteriza-se por um único indivíduo) em momentos de tragédia, e as quais, por razões reais ou não, lhe são atribuidos as culpas pelos fenômenos ruins de um periodo.
    Como exemplo, ninguém melhor do que o povo judeu, que em diversos momentos da história, personifica o papel do bóde espiatório por diversas culturas.
    O poeta francês, Guillaume de Machaut, escreve em meados do século XIV, o seu "O Julgamento do Rei da Navarra". O ínicio retrata uma série de eventos quase misticos em sua natureza, onde a frança era assolada por um mal maior, onde pedras choravam e rios de corpos serpenteavam por Paris. Um mal que flagelava os homens e que tinha sua origem no envenenamento de águas potavel por todo país pelos famigerados judeus.
    Sobre esse texto, diz René Girard: "Chamo de ingênuos os perseguidores ainda bastante persuadidos de seu direito e não muito desconfiados para maquiar ou censurar os dados característicos de sua perseguição.

    ResponderExcluir
  18. Alexander Junqueira24 de setembro de 2012 14:26

    Estes aparecem em seus textos ora sob forma verídica e diretamente reveladora, ora sob forma enganadora mas indiretamente reveladora. Todos os dados são fortemente esterotipados e é a combinação dos dois tipos de estereótipos, os verídicos e os enganadores, que nos informam sobre a natureza desses textos". Elucindando então, não que haja veracidade nos informes místicos, beirando ao poéticos, dos fatos que ocorriam, e nem mesmo que era realmente plausível acreditar que judeus conseguiram, nesse periodo histórico, envenenar em massa, fontes de agua potaveis, com algum quimico forte o suficiente para todo o estoque de água de uma cidade como Paris ou Reims, de fato, podemos desconsiderar tudo isso, porque o que assolava a frança era a própria peste negra, em verdade o que podemos extrair indiretamente de veracidade nos relatos de Guillaume é justamente que houve uma perseguição, havia um bóde expiatório para a peste, algo com mais forma e possivel de se machucar, ao contrário da imbativel doença, e que esta perseguição tinha suas fortes raizes na surpertição e na religião católica da época, e que ganhava um pouco mais de apelo com um argumento ligeiramente mais ciêntifico e plaúsivel como a quimica, capaz de influenciar até mesmo um nobre, possivelmente culto como Guillaume.
    Digo isso, e uso o argumento do bode expiatório para concluir essa ultima parte do debate. A multidão, tanto estado unidense, quanto russa, tiveram-lhes ofertada, no trágico pós segunda guerra, um bóde expiatório, ambos tiveram suas doses de surperstição e místicismo ao criar a imagem dos seus respectivos bódes. O capitalista que prosituiria a própria filha e venderia a mãe e o comunista comedor de criancinhas que ia roubar sua casa, seu carro e estilo de vida.
    Um dos maiores problemas com o conceito de "maldade" criada pelos seres humanos é justamente a incapacidade de uma noção limitida como bem e mal tem de classificar as pessoas adequadamente. Maldade é o conforto de poder apontar e acusar, separar o correto do restante, tomar esse restante e demonizá-lo, afastar as pessoas más para uma ilha imaginaria e enterrá-las lá. O que era notório era a aversão do cidadão comum, agora transformado em parte de uma nação que é acima de tudo uma turba, ao seu perseguido, ao outro lado e nunca este outro lado foi tão claramente delineado quanto na guerra fria.
    Os estereótipos da época, por mais exagerados e caracturais que fossem, ainda possuiam seu peso de verdade, os dois lados não estavam desprovidos de culpas reais, isso agrega ainda mais força a essa desassociação em massa das populações turba com os seus perseguidos. Comunista bom é comunista morto, capitalista vai te vender a bala para estourar seus miolos.

    ResponderExcluir
  19. Alexander Junqueira24 de setembro de 2012 14:36

    A guerra fria foi um confito absurdamente complexo, requer mais estudo e mais paginas do que temos disponivel para este debate.
    Concluo que sim, era possivel, plausível e até provavel que o conflito nuclear acontecesse. Todos os sinais apontavam para esse cenario, a psicologia dos dois povos era propicia, a forma como os estados funcionavam também, era duas nações de guerra, na época imbativeis por qualquer outra nação, brigando por controle politico, social e filosófico do resto do mundo.
    O elemento de destruição em massa, tornava esse bolo, instavel e ainda mais perigoso, nossa salvação veio de sorte em alguns casos, cautela humana em outros e o puro medo em alguns tantos, mas foi tênue, foi por pouco, e o futuro, incerto e sombrio, tem a capacidade de nos fazer perguntar se ainda veremos esse cenário acontecer.

    "Se o esplendor de mil sóis explodissem no céu de uma única vez, seria como o explendor do todo poderoso...Eu me tornei a morte, o destruidor de mundos"
    J. Robert Oppenheimer, citando "The Bhagavad Gita",Alamogordo, New Mexico, 1945

    ResponderExcluir
  20. Oi Alexander,
    Antes de mais nada, obrigado pela oportunidade de travar um duelo, extremamente enriquecedor. Em suas considerações finais, você apontou, de maneira muito feliz, um dos componentes da guerra fria: a demonização do outro lado. O filme que citei, Dr. Fantástico, trabalha um pouco com essa questão. O militar neurótico, que toma uma base e ordena que as fortalezas voadoras B-52 lancem suas ogivas contra os russos, acredita piamente que eles estão envenenando as fontes vitais do povo americano, colocando flúor na água. A semelhança com a acusação dirigida aos judeus, não é mera coincidência. E, como na fábula do lobo e do cordeiro, esse tipo de fanatismo não é sensível à argumentação.
    Vamos divergir apenas em uma questão de grau: você considera que um holocausto nuclear seria possível, plausível e até provável. Eu diria que era possível, embora pouco provável.
    Você argumenta, corretamente, que havia um conflito em escala mundial entre duas super-potências, com projetos hegemônicos que só poderiam se concretizar com a destruição do outro sistema e que havia uma base subjetiva, uma psicologia de massas, que justificava a aniquilação do inimigo.
    Antes de mais nada, é preciso notar que, embora o clima da guerra fria fosse extremamente quente (as citações de Nixon e de Stálin foram muito oportunas), é preciso distinguir entre o pensamento real do estadista e o discurso que ele usa para mobilizar seu povo em torno de seus objetivos.
    Platão, em A República, aborda a questão dos mitos fundadores e da mentira de Estado. Ele defendia um Estado hierarquizado, dividido em classes, em que cada segmento deveria exercer uma função determinada para assegurar a saúde do organismo social. Para justificar essa diferença ele sugeria um mito primitivo:
    · A primeira virtude era a da sabedoria, deveria ser a cabeça do Estado, ou seja, o governante, pois possui caráter de ouro e utiliza a razão.
    · A segunda espécie de virtude é a coragem, deveria ser o peito do Estado, isto é, os soldados ou guardiões da pólis, pois sua alma de prata é imbuída de vontade. E, por fim,
    · A terceira virtude, a temperança, que deveria ser o baixo-ventre do Estado, ou os trabalhadores, pois sua alma de bronze orienta-se pelo desejo das coisas sensíveis.
    http://pt.wikipedia.org/wiki/Plat%C3%A3o
    Platão diz claramente que, mesmo não acreditando que os homens foram gerados a partir de materiais diferentes, com diferentes destinos e habilidades, o governante deveria incutir nos seus governados esse mito. É a mentira de Estado. Sua justificativa é simples: o justo é aquilo que garante o melhor funcionamento do Estado.
    Mais tarde, em outro contexto, Maquiavel retoma a defesa da mentira como arma a ser usada judiciosamente pelo Príncipe.
    Com esses exemplos em mente, voltemos aos dois personagens citados. Nixon que fez carreira com McCarthy, o caçador de comunistas, levou essa retórica até a presidência. No entanto, reconheceu a China e normalizou as relações entre os dois países, numa época em que a União Soviética defendia a coexistência pacífica e a China afirmava que a terceira guerra mundial já havia começado. Segundo os chineses, a bomba era um tigre de papel que os reacionários usavam para amedrontar os povos e estes não deviam recuar mesmo diante da possibilidade de um holocausto nuclear!
    Stálin, por sua vez, patrocinou o Movimento pela Paz, na década de 50, cujo símbolo era uma pomba, desenhada por Picasso.
    "O mais provável — diz Stálin — é que o atual movimento pela paz, como movimento pela manutenção da paz, sendo bem sucedido, conseguirá evitar uma determinada guerra, adiá-la por certo tempo, manter por certo tempo uma determinada paz, afastar um governo belicista e substituí-lo por outro governo, disposto a manter temporariamente a paz".
    http://grabois.org.br/portal/cdm/revista.int.php?id_sessao=35&id_publicacao=493&id_indice=2899

    ResponderExcluir
  21. Como vemos, apesar de toda a retórica, os estadistas dos dois lados em conflito, nunca deixaram de tomar medidas concretas em favor da “detente” ( a política de reduzir as tensões e afastar o perigo de uma guerra nuclear ganhou esse nome).
    Outro ponto a ser considerado é que o maior argumento contra uma solução nuclear era e é, paradoxalmente, a capacidade de cada um destruir o outro. Inicialmente houve uma assimetria, já que os americanos foram os primeiros a construir e a testar a bomba. Entretanto, na primeira crise mais séria, a crise dos mísseis de 1962, o equilíbrio já era maior.
    A atitude de Kennedy e de Khrushev foi emblemática: mantiveram contato permanente, acalmaram os falcões de ambos os lados e fizeram as concessões necessárias. Havia uma clara percepção de que não havia sentido em correr o risco de uma guerra nuclear.
    Finalmente, nos dias de hoje, não existem mais dois sistemas em conflito, com ideologias opostas; existem apenas grandes potências, pragmáticas, que convivem civilizadamente, embora não deixem de promoverem guerras locais, sempre que os seus interesses estratégicos o exijam. Uma guerra hoje seria extremamente improvável.
    Levando tudo isso em conta, a probabilidade já foi maior. Haverá sempre um risco residual, enquanto houver armas de destruição em massa, tanto devido a uma falha humana, quanto devido a uma falha mecânica. Os exemplos que citados pelo Alexander são muito ilustrativos.
    Será que um cenário de confronto poderá se repetir? É difícil prever. Entretanto, seria justamente esse momento ideal, em que não existem maiores tensões nem motivos que justifiquem a manutenção de uma arsenal, para um efetivo desarmamento. O maior obstáculo são justamente as potências regionais emergentes, como Índia, Paquistão, Coréia do Norte e outras, que dificilmente abririam mão desse instrumento.


    ResponderExcluir